Precisava desaparecer. Buscava a sensação de evaporar por alguns minutos como gasolina no asfalto quente. Era o que seu corpo sinalizava há horas. Talvez a loja de conveniência de um posto de combustíveis não fosse a escolha ideal, mas em seu planejamento sempre lógico, era o que havia de concreto. Sabia que horas depois, tanto cabeça quanto estômago sentiriam as consequências da decisão infeliz de almoçar cappuccino com bombom de morango. Mas estava irredutível diante da ideia de conseguir meia hora de sumiço terapêutico.
O espaço cheio de pessoas cinzas debruçadas, mastigando com pressa, envolvidas em mais uma tarefa burocrática do dia. Conseguia ouvir o som dos dentes esmagando salgados sem graça, o sorver ruidoso de cafés e refrigerantes. Respingos, migalhas — tudo compondo uma sinfonia grotesca. Entre uma mordida e outra, as conversas seguiam um cardápio ainda mais previsível: personagens do Big Brother, o Carnaval recém passado, memes da internet, problemas no trabalho e, sobretudo, o que talvez componha noventa por cento das interações humanas: a vida alheia — temperada com queixas sobre suas próprias existências insossas.
Afastou-se e avistou um espaço ainda em fase de acabamento: um deck envidraçado. Um aquário vazio sob o sol de verão. Um daqueles erros arquitetônicos que a classe média confunde com luxo. Ainda assim, silencioso. Ninguém ousaria estar ali naquela estufa improvisada. Era o que importava: o refúgio suficiente. Precisava de menos humanidade.
Entrou e procurou o canto mais discreto, como sempre fazia. Enquanto apreciava a textura daquele silêncio, percebeu que já estava ocupado.
A figura esguia de cabelos castanhos caindo até a cintura e roupas pretas -usadas com aquela negligência calculada que apenas os observadores vorazes do mundo são capazes de ter - estava sentada no lugar escolhido bebendo o mesmo cappuccino e lia um livro, encolhida na quina. Uma coincidência tão perfeita que parecia encenada. A coincidência provocou um misto de entusiasmo e timidez. Bem diante de seus olhos uma sósia de Alanis de "Jagged Little Pill" à paisana.
Murmurou um cumprimento que quase não chegou a ser ouvido. Ela respondeu com um gesto mínimo acompanhado de um olhar direto e profundo que não invadia. Não havia flerte nem sedução. Era reconhecimento. Como dois passageiros que se identificam no mesmo erro de trajeto.
Sentou-se. Entre goles ansiosos do cappuccino havia a intenção de ler, mas as frases se desmanchavam; precisava voltar duas, três vezes. A presença dela deslocava o ar. A curiosidade cautelosa entre dois seres deslocados que, ao se perceberem, identificam no outro a mesma margem.
Imaginou conversas sobre livros que ninguém termina, músicas que salvam dias assim. Talvez compartilhassem sobre a sensação de estar sempre ligeiramente fora de lugar. Devaneios até "Alanis" se levantar. Conseguiu ver o título: "contos de Edgar Allan Poe" junto com o aceno de cabeça. Caminhou em direção ao caixa com a mesma discrição com que estivera ali, deixando para trás o eco breve de uma cumplicidade eternizada neste conto, no intervalo entre páginas não lidas, conversas que não existiram e goles de café doce demais.
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