segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Crônica de mais um natal entorpecido de uvas e rosas

"Só a morte vem nos mostrar que amávamos muito mais profundamente do que supúnhamos" (Baudelaire) [mas, se eu fosse como ele, com esse poder ou maldição, talvez escolhesse o mistério além da vida aos males tão sabidos]

O espírito penado do natal me faz lembrar de vc nesta época. Tudo lotado [supermercado e lojas iluminados horrivelmente com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar] - o último lugar do mundo onde você gostaria de estar - não dá nem para escapar daquele "boa tarde volte sempre" dito automaticamente em tom de morte. O tiro de misericórdia! Um breve resumo com gosto de peru e falsidade. Somos parecidas. Cada dia mais. Muito além do que eu pensava ser minha " confuguração padrão". Sobra tanta coisa para te contar em cada momento corriqueiro, gracioso, grandioso ou descartável e desprezivel nesse tempo todo eterno de 1 ano e tanto que passou desde que você foi embora. [no seco sem aviso prévio]
Queria te contar do meu trabalho novo, dos projetos que tenho para a casa e te ouvir discordando de cada detalhe deles. Te ouço criticando por eu ter arranjado mais um gato enquanto acaricia o bichinho apaixonada no colo. Queria que conhecesse meu namorado - aquela pessoa por quem eu esperei durante uns dez anos da minha vida. Um moço muito bonito e educado com quem vc adoraria trocar receitas e contar meu histórico de doenças desde antes de eu ter nascido. Fica aquela impressão de que vc sabia de tudo e deixou-se ir. Não julgo nem sinto raiva. Te entendo e te deixei ir sei lá para onde. É impossível chegar aos 30, 40, 50 ou...60 anos, sem querer dar um fim nisso tudo. Ou optar por um suicídio lento e silente. É sobre consciência – consciência do real e do essencial que estão escondidos na obviedade das coisas ao redor . Sobre esse milhão de mortes que você morreu antes de algum idiota qualquer ter carimbado o atestado de óbito! Eu lembro de todas as coisas que você me contava, - todos aqueles abusos e perversidades gratuitas - e me pergunto como vc permaneceu consciente e viva um dia depois do outro. Nesse tom aparentemente místico eu espero a cada noite adormecida uma nova visita. Como naquele sonho em que vc me chamou no quartinho de bagunça da casa para me contar que agora tudo estava tão bem e que não sentia mais dor [tantas dores físicas e emocionais]. Aquele abraço tão gostoso que era só sensação e saudade que ganhei acompanhado de um " filha que saudade!!" no banheiro de nossa antiga casa. Ia chorar mas acordei antes. Nunca gostei de chorar na frente dos outros. Nem mesmo que estejam mortos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Lena

Era assim, meiga e bonita na sua ignorância de criança. Apesar era autêntica, com uma maneira especial de ser Lena. E crescia como podia, como planta daninha, que mesmo sem cuidado chegava a ser bela como orquídea. Ia na igreja aos domingos e sexta na macumba.Queria ser freira, mãe de santo e bailarina. Já mulher teria uma casa só sua, enfeitada de quadros e bibelôs baratos. Dentro também queria seu homem. Ela venderia flores ,escreveria versos na estação e ele ficaria em casa. Faria qualquer coisa para que à noite estivesse com ela. Ele e Lena. Lena a mais tudo que houver no mundo.A mais mulher, a mais amante.No ônibus lotado ela sonhava. Sorria quando lhe dirigiam gracejos. Passo lento, cadenciado, boca úmida, cabelos ao vento, mais Lena do que nunca. Dançando no asfalto molhado, olhos brilhando no neon, fada, santa, bailarina, meretriz,Lena, colhia flores, possuía seu homem, pensava na casa,escrevia versos sem rima. Sonhava assim, cada vez mais Lena.