quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Faroeste Cabocla

Dona Terezinha ajudava a todos. Fosse lá quem fosse:  criança, velho, bicho, "maloqueiro", "puta" sem jamais julgar ninguém. Dava comida, roupa, água, qualquer coisa que não estivesse usando para quem quer que estivesse precisando. Dona Terezinha teve infância pobre. Nasceu no sítio e foi dada para uma família abastada da cidade criar e ter alguma chance de futuro. Isso foi logo depois da morte da irmãzinha que faleceu  com apenas 7 anos asfixiada por "lombriga". A família da pequena Olinda não tinha dinheiro para comprar a banana que ela tanto queria. Não tinham dinheiro. O feijão e a erva mate tinha que vingar. Caçavam bugio, porco do mato, galinha do vizinho e tudo mais que conseguissem engolir. Terezinha não gostava de bugio por achar que "parecia gente".  Depois dessa tragédia lá se foram as irmãs Terezinha e Iolanda aos 8 e 7 anos respectivamente viver na cidade grande. Mas não foram ajudar a família e estudar. Viveram 10 anos sob humilhações, migalhas e foram retiradas da escola na quarta série porque "empregada precisa só saber ler receita e fazer continha pra ser boa de cozinha" - como diziam suas "fadas madrinhas" .
Terezinha deu basta em um sonoro tapa na cara de uma delas e seguiu sua vida sem saber como. Saiu com trouxinha de roupa velha e a certeza de que precisava sobreviver  sem ser a puta que disseram que ela seria. Era final dos anos 60. Moça pobre, sozinha, sem família nem rumo na cidade grande já viu né... "se perde" mesmo!  Mas Terezinha remava contra a maré. Aos 18 anos já bem sofrida era muito da cascuda! Desbocada, altiva, faladeira e também muito teimosa a mocinha morena com olhos de céu decidiu que que não ia ser puta. Diziam que tinha olhos de santa mas esses não sabiam de nada... Foi copeira, empregada doméstica, dama de companhia, vendedora, teceu perucas,  foi costureira, bordadeira, caixa de mercado.... Tudo menos puta! Até conseguir seu tão sonhado diploma de enfermagem. Morou em pensão, convento, casa de família, fez supletivo, pagou estudo sozinha,  comeu pão com banana, pão que o diabo amassou, jantou água de torneira mas aos 27 era a Enfermeira Terezinha indo comprar seus sapatinhos brancos para ir trabalhar.  Eles sempre deformavam por conta dos pés tortos de meningite na primeira infância. Enfermeira Terezinha cuidava de todos como se fossem a família que ela nunca tivera. Dos pacientes ela ajeitava cobertas, travesseiro, ouvia atentamente as queixas de cada  um e dava conselhos. Mesmo depois do trabalho ela não tinha descanso. Fazia injeção, curativo em criança, bicho, velho e acolhia mulher que apanhava do marido. Dona Terezinha dizia debochada em seu tom de praga certeira: " se algum fiada mãe desses estiver bancando o besta pra cima de mim, se aproveitando não é comigo o negócio. Vai cair no rabo deles mesmos. É com eles mesmos que vão acertar as contas. Depois aparecem feito cão sarnento, todos ferrados na minha frente!" E era tiro e queda! Impressionante. Dona Terezinha sempre teve um quê de bruxa. Acabo de escrever às 22:22, o horário favorito dela. Jamais eu soube o motivo. Dona Terezinha era minha mãe.

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