I.
Foi ficando cada vez mais paralisada por causa das brigas frequentes de seus pais.
Era tão pequena.
Tentava não ser frágil.
Não podia ser.
Às vezes ela ficava horas no banheiro em pé e completamente imóvel simplesmente porque era lá que por acaso ela estava quando tudo começava.
Poderia ser qualquer lugar.
Por fim nos momentos de calma começou a pegar garrafas de bebidas e as deixar em lugares onde mais tarde ela poderia ficar presa.
Seus pais não conseguiam entender por que achavam garrafas vazias pela casa toda.
Juízo debilitado, apatia, ansiedade, dores de cabeça, nervosismo, insônia, agitação, náusea, coceira, tremor, suor, espasmos...
ameniza
cura
ameniza
shhhhhh....
II.
Um alívio tão grande gostar.
Deitar na cama e ser abraçada.
Tocada e beijada.
Nunca soube receber afeto.
[Meu coração saltará quando ouvir tua voz.
Um sorriso espontâneo e o calor nas bochechas até ficar na ponta dos pés para tocar tua boca.
Então mentirei para nós desde o primeiro dia.
Te usarei para abafar minhas carências.
Farei tudo para te agradar.
Porquê eu te amo!
De um jeito torto e esquisito mas amo.
Partirei teu coração antes que parta o meu primeiro.
Por força do hábito.
Quem sabe você goste mais de mim a cada dia?
Até o peso se tornar insuportável.
Quando tua vida se tornar minha.
Você estará sozinho porque eu levarei o que quiser.
Irei embora sem dever nada.]
Saia deste lugar enquanto pode!
Antes que a cidade exploda!
Você é tão bonito.
Todos dizem...
III.
Está sempre lá.
Sempre esteve lá e eu não posso negar essa natureza.
É minha maldição.
Foda-se tudo isso...
Não estou para isso mais.
Não sou mais isso!
A verdade é que se você morresse seria como arrancassem meus ossos.
Eu entraria em colapso. Minha alma se esfacelaria em poeira cósmica.
Ninguém saberia o motivo.
IV.
Você tem relacionamentos com homens?
Você tem dificuldade em se relacionar com homens?
Minha dor não tem nada a ver com homens.
V.
Sou o tipo de mulher de quem as pessoas falam.
Eu não tenho música.
Como eu queria ter música mas tudo que tenho são palavras.
Palavras soltas e desconexas que não ousam ser poema.
Eu anseio pelo branco e preto
mas os pensamentos correm em cores vivas que dancam me fazendo ficar acordada
arrancando a quente coberta da invisibilidade toda vez em que ela promete sufocar minha mente.
Eu tento puxar para fora mas fica cada vez pior!
Não tem fim.
Nunca vai.
VI.
Engulo e finjo que não está lá.
Nada de mais.
Pareço até feliz para quem não está.
Você recebe essas mensagens confusas porquê eu tenho sentimentos confusos.
Desculpa meu amor.
Não me odeie assim.
Ninguém consegue me odiar mais do que eu mesma.
A privação de sono é uma forma de tortura.
Mas privação de amor é pior delas.
VII.
Porquê eu bebo tanto se a bebida não consegue me matar com a rapidez necessária?
Minha risada é uma bolha de desespero contido.
Eu escrevo sobre a verdade.
Pelo menos a minha verdade.
Isso me mata.
Mas ainda não com a rapidez necessária.
Eu odeio essas palavras que me mantêm viva.
Palavras que não me deixam morrer de vez!
Elas expressam um pouco da minha dor.
Mas jamais poderão aliviá-la.
VIII.
Ela não é má pessoa,
Só acha que pensa demais.
Agora.
Séria.
Nenhum desespero.
Nada de emoções.
Sexo burocrático e memória de peixe de aquário.
Lobotomia química em receitas lícitas.
Nunca guarde lembraças de um assassinato.
Outra vida.
Outra pessoa.
Eu não fiz nada!
Nada além dos meus limites.
Tão cansada de segredos.
Eu me dou.
Abro meu coração.
Apenas outra pessoa agora.
Aquela lá nunca existiu.
IX.
Ela está falando dela mesma na terceira pessoa
porque a idéia de ser quem ela é,
de reconhecer que ela é ela mesma
é mais do que seu orgulho pode suportar.
Ela morreu.
As pessoas morrem...
Todo mundo finge e se esconde.
Ninguém sobrevive à realidade se não fizer isso.
Ninguém quer saber como é a noite.
Fuja da noite!
Vc entende?
Talvez se entendesse não teria sobrevivido para me dizer que "entende".
A vaidade e o orgulho me mantém ilesa diante de todos.
Odeio o consolador e principalmente o consolado.
Eu me mudei para um estacionamento vazio.
Não quero mais sair de lá!
Perdi minha honestidade há tempos.
Você convive com alguém que não existe.
O que fizeram comigo?
Cresça e pare de culpar pessoas.
Acontece...
É assim mesmo.
X.
Vivo de um lado para outro.
Nunca pára.
Nunca isso ou aquilo.
Sempre de um extremo ao outro.
Minha vida não tem nada de especial,
Uma torrente de eventos casuais como outra qualquer.
Uma torrente para dentro de um oceano salgado que fere, fere, mas não mata.
Sorriso mecânico.
Mostre satisfação e interesse.
Agradeça a Deus acima de tudo.
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