Como alguns de vocês já sabem minha mãe descobriu há pouco tempo um câncer que se espalhou rapidamente. Junho foi o mês em que me ausentei do trabalho para fazer um tour por quase todos os hospitais da cidade. Descobri várias coisas inúteis como qual a melhor maneira de dormir em cadeiras de plástico sem torcer a coluna,conseguir receitas de analgésicos controlados me jogando na frente de médicos como quem em surto se joga na frente de carros, ou o jeito de driblar a copa e conseguir um pãozíiim no intervalo...entre várias outras bizarrices que daria um blog, caso interessasse a alguém. Aprendi também como pessoas que jamais se viram na vida podem ser amorosas e solidárias umas com as outras, Assim como a capacidade do bicho humano em ser asqueroso e detestável! Também me reconectei com pessoas queridas das quais os caminhos se separaram com o passar do tempo. E pessoas que se tornaram queridas e que jamais imaginei poder contar de várias formas. Fica aqui meu carinho e meu eterno agradecimento! Meu outro anjo da guarda desde antes do nascimento, Tia Iolanda, também voltou!
Então amiguinhos, hoje foi xeque-mate: o câncer venceu e minha mãezinha se foi. Em 1 MÊS! O que fazemos em 1 mês? Geralmente não muita coisa. Mas não foi bem assim. Cada dia parecia ter 100 horas e quando acordava não fazia a menor ideia de como e onde iria acabar. Era como atravessar um portal para qualquer parte,
A imagem que temos de um doente terminal é de alguém frágil deitado em um quarto decorado e um filho que chega de algum lugar. Eles se abraçam, choram, se perdoam e relembram fatos do passado até o outro dormir e não acordar mais,certo? Não. A vida não é como nos filmes. Especialmente para quem se trata pelo sistema público de saúde. São hospitais sucateados, médicos displicentes, profissionais mal preparados, muita, mas muita mesmo demora e espera. A ponto de agendar consulta com um paciente em estado grave sem o resultado do exame estar liberado! Não darei nomes aos bois nem às vacas embora a mão chegue a tremer!
Mas resumindo é muita irresponsabilidade e descaso. Cuidar de uma pessoa com metástases não é nada simples também. São dores que nem consigo sequer imaginar, pois não conseguia ajeitar um travesseiro sem minha mãe berrar de dor. É aprender a ministrar medicação, sondas, dietas especiais, trocar fraldas e cuidar como um bebêzinho de alguém que te cuidou e amou muito quando você era um bebêzinho. É pesquisar e brigar pelos seus direitos, ser petulante, aturar grosserias e ser expulsa o tempo todo de lugares por simplesmente querer ajuda por não aguentar ver a pessoa mais amada do mundo sofrendo daquele jeito. Só que para o resto do mundo ela só é mais uma velha moribunda como qualquer outra. E como isso te machuca e te enfurece!
A vida é essa coisa estranha que não sabemos onde começa, como acaba, para quê serve e o que tem depois. As explicações e respontas são inúmeras e cada um fica com a que mais lhe confortar. É para isso que servem as religiões: a ilusão de obtermos respostas para não pirar de vez!! E se não tiver nada além disso? E se essa planta aqui na janela for a reencarnação do avô de alguém? E se nossos queridos que se foram ficarem sentados em fofas nuvens acenando quando passamos de avião? Se "Deus" for um alienígena brincalhão que não tá nem aí pra nada? Tudo isso é muito perturbador. A ausência disso é pior ainda para a maioria das pessoas! Eu como questiono e desconfio de tudo por natureza, continuo achando tudo isso uma grande piada. Como aqueles filmes conceituais que terminam sem pé nem cabeça. Vai ver é isso mesmo...
Por enquanto é isso. Agora preciso cuidar dos detalhes burocráticos inerentes ao mundo material enquanto meu anjo (no sentido mais puro da palavra) viaja para algum lugar desconhecido.
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